Um Dia de Cada Vez




Eu sempre volto para aquele dia...

Não importa quantas vezes eu diga a mim mesma que passou. Não importa quantas vezes eu tenha conseguido atravessar uma crise, respirar fundo, enxugar as lágrimas e continuar. Não importa quantas coisas eu tenha aprendido sobre mim desde então, quantas conversas tive em terapia, quantas vezes achei que finalmente havia colocado aquele período em algum lugar distante da minha memória.

Eu sempre volto para aquele dia.

Às vezes, basta muito pouco.

Um acontecimento relacionado à saúde. Uma sensação no corpo. Uma palavra. Um horário. Uma imagem. Pequenas coisas inofensivas que geram um desconforto que, racionalmente, não deveria causar nada.

Mas o corpo não entende de racionalidade.

Ele reconhece sensações.

E, de repente, eu não estou mais aqui.

Estou lá.

Naquele lugar onde o medo tem outra dimensão, onde meu corpo deixou de parecer inteiramente meu e eu preciso confiar que, depois de tudo, ainda haverá um depois.

É estranho perceber que podemos superar tantas coisas e, ainda assim, continuar carregando algumas delas dentro de nós.

Talvez superar nunca tenha significado esquecer. Talvez signifique apenas aprender a voltar para o presente depois de visitar o passado.

Eu não queria me sentir assim outra vez. Confesso que essa é uma das partes que mais me cansam. Porque existe uma espécie de frustração em perceber que, depois de tanto trabalho para ficar bem, alguma coisa consegue tocar exatamente no lugar que eu pensei estar cicatrizado.

É como se todo o caminho percorrido desaparecesse por alguns instantes. Mas ele não desapareceu.

Eu sei disso.

A mulher que enfrentou aquele dia ainda existe, mas também existe a mulher que sobreviveu a ele. A que chorou. A que teve medo. A que pediu ajuda. A que aprendeu a reconhecer os próprios limites. A que fez de tudo para sobreviver e melhorar. A que atravessou crises que, naquele momento, pareciam impossíveis de atravessar.

Preciso lembrar disso quando volto.

Eu não sou mais aquela mulher. Mas ela ainda mora em mim.

E, às vezes, ela tem medo. Muito medo.

Talvez eu precise parar de exigir que ela não tenha. 

Que eu não sinta medo.

Porque ignorar o que sinto não vai fazer desaparecer o que aconteceu. Fingir que estou bem não vai apagar as memórias que meu corpo guardou. E é necessário que eu não precise lutar contra cada lembrança como se ela fosse uma inimiga.

É acolher a mim mesma e admitir:
eu sei que estou com medo, mas estamos aqui agora.

E, curiosamente, quando volto para aquele dia, percebo que existem muitos dias escondidos dentro dessa frase. Dentro daquele dia.

Eu volto para o dia da cirurgia.

Mas também volto para os dias que vieram antes dela.

E então, inevitavelmente, volto para "ele".

Volto para os dias em que eu me sentia forte e saudável.

Para os dias em que a presença daquele alguém fazia parecer que os dias pareciam coloridos e alegres como um arco-íris, e leves como uma nuvem.

Havia uma força escondida que eu sentia quando estava ao lado dele. Uma espécie de segurança difícil de explicar para quem nunca experimentou. 

Era como se o mundo pudesse desabar ao redor e, ainda assim, existisse alguma coisa em mim que permanecia inteira.

Eu me sentia forte. Inabalável. Incrível. Destemida.

E talvez seja por isso que, quando o medo voltou, eu tenha sentido falta dele.

Não necessariamente da presença física, mas daquela sensação que só ele era capaz de causar. Daquela força fluída e extra. Daquela parte de mim que existia quando estávamos juntos.

É muito difícil admitir precisar dele uma vez ou outra. 

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de se fazer. 

Porque eu passei tanto tempo aprendendo a viver sem ele. 

Aprendendo a suportar a ausência. Aprendendo que algumas pessoas podem continuar existindo dentro de nós mesmo depois de partirem da nossa vida. Aprendendo o que significa um luto que não envolve uma morte.

Convivendo com o luto de uma pessoa viva. O luto de um amor que terminou enquanto os dois continuam respirando distantes. O luto de aprender a existir sem aquele alguém perto.

Eu achei que já tivesse aprendido a lição. Talvez tenha aprendido mesmo, mas algumas delas, não tudo o que ainda possa estar oculto.

Mas aprender não significa nunca mais sentir falta.

É uma luta hercúlea quando o pavor me assola, e eu sinto a vontade de acessar aquela energia que não pertence a mim.

Talvez isso seja o meu orgulho. Talvez seja a lição a ser aprendida.

Porque existem pessoas das quais a gente se despede sem conseguir realmente deixá-las para trás.

Talvez eu tenha descoberto que não preciso. Talvez eu possa carregar algumas presenças de outra maneira.

Sem transformar a ausência em prisão. Sem transformar a saudade em promessa de retorno.

Apenas reconhecendo que houve um tempo em que aquela pessoa me ensinou a ser forte e conhecer meu potencial.

E que, mesmo depois de ela partir, alguma parte daquela força ficou.

É por isso que dessa vez, me permiti voltar para aquele dia.

Talvez eu esteja entendendo agora que não volto apenas para o dia em que tive medo.

Volto também para os dias em que fui feliz. Volto para os dias em que me senti amada. Volto para o dia em que ele chegou. Volto para a mulher que eu era antes de tudo isso. Volto para o dia em que ele partiu.

E para a mulher que precisei me tornar depois.

Talvez o trauma tenha me ensinado a voltar para o passado, mas a vida continua me ensinando a voltar para mim.

E essa talvez seja a diferença.

Eu posso voltar. Posso lembrar. Posso sentir falta. Posso ter medo. Posso precisar de ajuda outra vez.

Isso não significa que eu retrocedi. Significa apenas que algumas feridas não obedecem ao calendário.

E tudo bem.

Hoje, eu não preciso vencer o passado. Não preciso provar que superei. Não preciso ser forte o tempo inteiro.

Hoje, talvez seja suficiente respirar.

Reconhecer o medo. Segurar minha própria mão.

E permanecer nesse dia.

Pois, mesmo quando eu volto para aquele dia, existe uma coisa que não existia naquela época:
eu sei o caminho de volta.

E talvez seja isso que significa, de verdade, viver um dia de cada vez.

Essa semana ouvi uma frase em uma novela. O contexto era completamente diferente daquilo que vivi, mas algumas palavras atravessaram a história e chegaram até mim de um jeito que eu não esperava.

“Eles abusaram do seu corpo, não permita que continuem abusando de sua alma.”

Eu parei.

Pela primeira vez, eu senti ter encontrado uma maneira diferente de olhar para aquilo que aconteceu comigo.

Meu corpo passou por coisas que eu não gostei de ter vivido.

Houve medo. Houve dor. Houve vulnerabilidade. Houve momentos em que eu precisei entregar meu corpo aos cuidados de outras pessoas e confiar que ele sobreviveria àquilo.

E ele sobreviveu.

Mas uma parte de mim continuou naquele lugar. Naquele dia.

É isso que às vezes me assusta. Porque o acontecimento terminou. A cirurgia terminou. O dia do calendário passou.

O tempo passou. Eu segui vivendo e sobrevivendo.

Mas, às vezes, basta alguma coisa tocar naquele lugar delicado e, por alguns instantes, é como se o passado descobrisse uma porta que eu não sabia que ainda estava aberta.

E acabo voltando para aquele dia.

E talvez seja justamente aí que aquela frase tenha me encontrado.

Porque eu não posso mudar o que fizeram com o meu corpo. Não posso voltar no tempo e impedir o medo. Não posso apagar aquela versão de mim que precisou atravessar tudo aquilo.

Mas tenho aprendido a não permitir que o trauma terá para sempre o direito de entrar na minha alma.

Lembrar não precisa significar reviver.

Sentir medo não precisa significar estar novamente em perigo.

Voltar para aquele dia não precisa significar permanecer nele.

Porque eu estou aqui. Hoje. Agora.

E eu preciso aprender, pouco a pouco, respeitando o meu ritmo de aprendizado, a devolver ao passado aquilo que pertence ao passo dado.

A dor. O medo. Aquela sensação de impotência. Aquela necessidade desesperada de saber se eu ficaria bem.

Tudo isso aconteceu, mas não está acontecendo agora.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis que alguém pode aprender depois de um trauma:
o corpo pode se lembrar de uma coisa que já terminou, enquanto a alma precisa ser convencida de que está segura novamente.

Por isso, a frase da novela me fez refletir, e me ensinou a repetir:
não permita que continuem abusando da sua alma.

Não deixe que aquele dia tenha todos os seus dias.

Não deixe que uma lembrança determine todos os seus futuros.

Não entregue ao medo aquilo que você levou tanto tempo para reconstruir.

Eu posso sentir. Posso chorar. Posso ter medo. Posso precisar de ajuda.

Posso até sentir falta de quem um dia me fez acreditar que eu era forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa ou sentir falta dos dias gloriosos e leves.

Mas existe força em mim. Mesmo que agora ela seja diferente.

Talvez eu não seja mais a mulher que se sentia inabalável.

Apenas estou aprendendo a ser a mulher que permanece de pé mesmo quando precisa segurar a própria mão.

E isso também é força.

Então, se eu voltar para aquele dia amanhã, tudo bem.

Eu vou voltar sabendo que existe um caminho de volta.

Porque aquele dia pode fazer parte da minha história.

Mas não pode continuar sendo o lugar onde minha vida inteira acontece.

Eu gostaria de poder simplesmente esquecer, mas sei que não posso.

Então, preciso conviver apenas que a lembrança e não deixar ela comandar a minha vida.

Quero poder olhar para aquela mulher e dizer:
eu sei, é assim mesmo. Eu sei que você teve medo. Eu sei o quanto doeu. Eu sei que você achou que nunca conseguiria sair dali.

Mas nós saímos.

E estamos aqui.

Ainda aqui.

Aprendendo um dia de cada vez.

Vivendo um dia de cada vez.

Sempre um dia de cada vez.

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